O Caderno da Diana · Português no estrangeiro

Como manter o Português vivo nos filhos que crescem no estrangeiro

Ideias simples para que o Português continue a ser uma língua de casa, de afeto e de brincadeira, mesmo quando a escola e os amigos falam outra língua.

Muitas famílias portuguesas que vivem fora contam-me a mesma coisa: em casa fala-se Português, mas a criança responde cada vez mais em inglês, em francês ou em alemão. Não é falta de vontade nem de carinho pela língua. É simplesmente o caminho mais fácil para quem passa seis ou sete horas por dia numa escola onde tudo acontece noutra língua.

A boa notícia é que o Português não se perde de um dia para o outro, e há muito que se pode fazer em casa sem transformar a língua num trabalho de casa.

O Português precisa de ter uma função

As crianças aprendem as línguas de que precisam. Se tudo o que é importante no dia delas acontece noutra língua, o Português fica para os momentos em que os pais insistem. Por isso, o primeiro passo é dar-lhe um lugar próprio:

  • Um momento do dia só em Português. O jantar, o banho, a história antes de dormir. Pouco tempo, mas sempre.
  • Pessoas que só falam Português. Os avós, uma tia, uma amiga da família. Uma videochamada semanal com alguém que não percebe a outra língua vale mais do que muitos pedidos de «fala em Português!».
  • Coisas boas em Português. Canções, desenhos animados, receitas da avó. A língua fica ligada ao que dá prazer.

Ler em voz alta, todos os dias que se conseguir

Nas minhas aulas, tudo começa com um livro, e não é por acaso. Um livro traz palavras que não aparecem na conversa do dia a dia: o ancinho, o cesto, a toca do esquilo. Traz frases completas, ritmo, rimas.

Não é preciso que a criança já leia sozinha. Ler-lhe em voz alta, parar para perguntar «o que achas que vai acontecer?» e deixá-la contar a história outra vez à sua maneira é dos exercícios mais completos que existem. Se ela misturar palavras das duas línguas no reconto, não faz mal. Repita a frase em Português, com naturalidade, e continue.

Não corrigir tudo

Quando cada frase é interrompida com uma correção, a criança aprende sobretudo que falar Português é difícil e arriscado. É mais eficaz responder ao que ela quis dizer, usando a forma certa:

«Eu goed ao parque.» «Ah, foste ao parque? E quem foi contigo?»

A correção está lá, mas a conversa continua. Uma ideia que resulta bem com algumas famílias é escolher, em cada semana, duas ou três frases de família: expressões portuguesas que todos tentam usar («Está um frio de rachar», «Vamos pôr a mesa»). Escrevem-se num papel no frigorífico e quem as usar ganha um ponto.

A outra língua não é inimiga

Às vezes os pais sentem que têm de escolher. Não têm. As crianças bilingues não ficam confusas por ouvirem duas línguas. Pelo contrário, cada língua ajuda a outra: uma criança que ouve muitas histórias em Português tem mais vocabulário para pensar, seja em que língua for.

O que ajuda é ter alguma coerência. Se o pai fala sempre Português e a mãe fala sempre a língua do país, a criança percebe rapidamente com quem fala o quê.

E quando a criança se recusa?

Há fases. Por volta dos 6, 7 anos, muitas crianças querem ser iguais aos amigos e o Português passa a ser «a língua dos pais». Forçar costuma piorar. Funciona melhor baixar a pressão e aumentar o prazer: um livro novo escolhido por ela, uma viagem a Portugal com uma missão («vais tu pedir os pastéis de nata»), uma série de que ela goste dobrada em Português.

Uma ideia para esta semana

Escolha um momento fixo do dia, de dez minutos, para ler um livro em Português com o seu filho ou a sua filha. No fim, peça-lhe que conte a história ao avô ou à avó por videochamada. Vai ver que a vontade de contar ajuda mais do que qualquer exercício.

Se procurar acompanhamento semanal, as minhas aulas online são pensadas exatamente para crianças que crescem longe de Portugal.